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Rayman Assunção

Cinema atual: por que os filmes estão mais ideológicos e menos humanos?

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O cinema sempre dialogou com política, valores e conflitos sociais. Isso não é novidade. O problema do cinema atual não é “ter ideologia”, mas permitir que ela substitua a essência mais nobre da arte: contar boas histórias sobre pessoas reais, com dilemas reais, contradições e humanidade. Hoje, grande parte das produções parece menos preocupada em emocionar e mais empenhada em doutrinar.

Nos últimos anos, Hollywood — e parte significativa do cinema global — passou a tratar narrativas como instrumentos pedagógicos. O roteiro deixa de servir à história e passa a servir a uma agenda. Personagens já não evoluem; eles “representam”. Não erram, não amadurecem, não surpreendem. São moldados para transmitir mensagens politicamente corretas, previsíveis e, muitas vezes, superficiais. O resultado é um cinema que fala muito, mas diz pouco.

A cultura do cancelamento agravou esse cenário. Criadores trabalham sob constante vigilância moral. Um diálogo mal interpretado, um personagem imperfeito ou uma visão ambígua podem gerar boicotes, ataques online e prejuízos comerciais. Para evitar riscos, estúdios optam pelo caminho mais seguro: repetir fórmulas ideológicas aprovadas por bolhas culturais específicas. A criatividade cede lugar à autocensura. O cinema deixa de provocar e passa a obedecer.

Outro sintoma claro é a substituição do conflito humano pelo conflito identitário. Grandes filmes do passado discutiam poder, culpa, redenção, sacrifício, amor e fé — temas universais. Hoje, muitas obras reduzem a experiência humana a rótulos sociais. Isso empobrece a narrativa e afasta o público comum, que busca identificação, não militância disfarçada de entretenimento.

Curiosamente, o público percebeu isso antes da crítica especializada. O sucesso de produções independentes, filmes mais simples ou obras que apostam em boas histórias — mesmo sem grandes discursos ideológicos — revela uma fome por narrativas autênticas. O espectador não rejeita diversidade, justiça ou crítica social; ele rejeita ser tratado como incapaz de pensar por si mesmo.

O cinema vive uma crise criativa porque esqueceu sua missão primordial: revelar verdades humanas por meio da arte, não impor verdades políticas por meio do marketing cultural. Quando a ideologia domina o roteiro, a alma abandona o filme.

Enquanto o cinema insistir em ensinar o público o que pensar, em vez de convidá-lo a refletir, continuará perdendo algo essencial: sua capacidade de tocar o coração, provocar silêncio e permanecer na memória. Boas histórias resistem ao tempo. Panfletos, não.

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