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Minha Fé

Rayman Assunção

A fé vivida no silêncio: quando servir a Deus não dá likes nem aplausos

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Vivemos em uma época marcada pela superexposição, pela lógica do desempenho e pela busca constante de reconhecimento público. As redes sociais transformaram gestos, opiniões e até causas nobres em vitrines onde o valor parece medir-se pelo alcance, pelos aplausos e pelos “likes”. Nesse contexto, a fé cristã corre um risco real: ser reduzida a uma performance visível, a uma identidade exibida, ou a um discurso bem aceito, mas esvaziado de profundidade interior. É precisamente contra essa tentação que a espiritualidade do silêncio e do escondimento se levanta como um sinal profético.

A Sagrada Escritura é clara ao recordar que Deus vê no oculto. Cristo, no Sermão da Montanha, adverte contra a ostentação religiosa: a esmola, a oração e o jejum, quando feitos para serem vistos, já receberam sua recompensa. O Pai, porém, “que vê o que está oculto”, é quem retribui verdadeiramente. Essa lógica atravessa toda a Tradição da Igreja. A vida de Nazaré — trinta anos de silêncio, trabalho simples e fidelidade cotidiana — não é um detalhe irrelevante da vida de Jesus, mas um ensinamento decisivo sobre como Deus age e como o homem deve responder.

A espiritualidade católica sempre valorizou a constância humilde e a fidelidade anônima. Os santos mais fecundos, muitas vezes, foram os menos conhecidos em vida. A Tradição monástica, o testemunho das mães e pais cristãos, dos trabalhadores honestos, dos religiosos e leigos fiéis no ordinário da existência revelam que a santidade não depende de visibilidade, mas de conformidade da vida com a vontade de Deus. O Magistério da Igreja insiste que a fé não é um sentimento passageiro nem um projeto de autoafirmação, mas uma resposta obediente e perseverante ao chamado divino.

O desafio contemporâneo está em confundir testemunho com autopromoção. Há uma tentação sutil de transformar a fé em conteúdo, a caridade em espetáculo e a vida espiritual em narrativa pessoal. Quando isso ocorre, o critério deixa de ser a verdade e passa a ser a aceitação. O silêncio, então, assusta; a constância parece irrelevante; e a fidelidade sem reconhecimento é vista como fracasso. Essa distorção não apenas empobrece a vida espiritual, mas corrói a autenticidade do testemunho cristão.

Viver a fé no silêncio não significa esconder Cristo por medo, mas servi-Lo sem negociar a intenção do coração. Na vida concreta, isso se traduz em pequenas fidelidades: rezar mesmo quando ninguém vê, perseverar no matrimônio quando não há aplausos, educar os filhos na fé sem garantias de reconhecimento, servir na comunidade sem buscar destaque. É no cotidiano silencioso que a graça molda a alma, purifica as motivações e gera frutos duradouros.

Em síntese, a fé vivida no silêncio é um antídoto contra a superficialidade espiritual de nosso tempo. Ela recorda que Deus não se impressiona com números, mas com corações fiéis. Em um mundo que clama por visibilidade, o cristão é chamado a redescobrir a força do escondimento, a beleza da constância e a liberdade de servir a Deus por amor, e não por aplausos. Essa é uma fé mais exigente, mas também mais verdadeira — e, no fim, a única que permanece.

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