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Minha Fé

Rayman Assunção

As tradições da Igreja estranhas ao mundo moderno

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Vivemos em uma época marcada pela velocidade, pela utilidade imediata e pela constante substituição do que é antigo pelo que parece novo. Nesse contexto cultural, muitas práticas, símbolos e costumes da Igreja Católica soam estranhos, desnecessários ou até anacrônicos aos olhos modernos. Gestos como ajoelhar-se, jejuar, usar paramentos específicos, venerar imagens ou manter ritos milenares são frequentemente vistos como resquícios de um passado superado. No entanto, essa leitura revela mais sobre a mentalidade contemporânea do que sobre a própria Igreja.

A Igreja não conserva tradições antigas por apego nostálgico ou resistência irracional à mudança. Ela as guarda porque sabe que a fé cristã não nasceu ontem, nem é fruto de uma construção cultural momentânea. A Revelação de Deus em Jesus Cristo aconteceu na história e foi confiada à Igreja para ser transmitida fielmente ao longo dos séculos. A Sagrada Escritura, a Tradição viva e o Magistério formam um único depósito da fé, no qual práticas e símbolos não são acessórios, mas expressões concretas de verdades espirituais profundas.

Desde o Antigo Testamento, Deus educa o seu povo por meio de sinais, ritos e gestos visíveis. O culto não é uma invenção humana para agradar sensibilidades, mas resposta obediente à iniciativa divina. O Novo Testamento não elimina essa dimensão simbólica; ao contrário, a eleva. A Encarnação do Verbo confirma que Deus se comunica por meios concretos, corporais e históricos. Assim, a liturgia, os sacramentos e os costumes da Igreja preservam essa lógica encarnada da fé, que se opõe a qualquer espiritualidade puramente subjetiva ou desencarnada.

O mundo moderno, porém, tende a desconfiar de tudo o que não pode ser imediatamente explicado, mensurado ou adaptado ao gosto pessoal. Daí surgem distorções frequentes: chamar tradição de “costume vazio”, confundir simplicidade com banalização, ou reduzir a fé a uma experiência íntima sem forma, sem disciplina e sem memória. Esse olhar ignora que a tradição não é um peso morto, mas uma raiz viva. Quando a Igreja conserva práticas antigas, ela não rejeita o presente; ela o ancora em algo maior do que as modas passageiras.

Na vida cristã concreta, essas tradições educam o corpo e a alma. O silêncio ensina escuta, o rito ensina reverência, a repetição forma perseverança, e o símbolo conduz ao mistério. Na família, na paróquia e na comunidade, esses elementos criam identidade, continuidade e senso de pertencimento. Eles lembram ao cristão que a fé não começa nele e não termina nele.

Em síntese, o que parece estranho ao mundo moderno é, muitas vezes, justamente o que protege a fé de se dissolver nele. As tradições da Igreja são uma escola de humildade diante do mistério de Deus e um convite a viver a fé com mais profundidade, consciência e fidelidade. Em vez de perguntar se elas ainda “fazem sentido”, talvez seja mais honesto perguntar se ainda estamos dispostos a deixar que Deus nos forme — mesmo quando isso contraria os critérios do nosso tempo.

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