Penso e Falo
Rayman Assunção
Quem vive de passado não é só museu. Eu vivo
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Olá!
Sempre tem alguém que solta, com certo ar de superioridade: “quem vive de passado é museu”. Eu escuto, sorrio e penso comigo: então eu sou um museu vivo — e muito bem preservado. Porque eu vivo, sim, do meu passado. Não como quem foge do presente, mas como quem sabe exatamente de onde veio.
Tenho uma satisfação sincera em revisitar minha adolescência e minha juventude. Não é saudosismo vazio. É gratidão. É identidade. É memória que aquece. A década de 1990, para mim, não foi só uma fase da vida. Foi uma escola, um refúgio e, ouso dizer, a melhor década da história — pelo menos da minha história.
Eu lembro com carinho dos filmes da Tela Quente e da Sessão da Tarde. Não eram só filmes. Eram rituais. A semana parecia incompleta sem aquele momento de sentar no sofá, desligar o mundo e mergulhar numa aventura simples, direta, sem lacração, sem excesso de explicação. Histórias que ensinavam amizade, coragem, sacrifício — sem discurso.
Pela manhã, os desenhos na TV tinham alma. Não eram descartáveis. Tinham trilha sonora marcante, personagens memoráveis e histórias que grudavam na cabeça. E entre um desenho e outro, vinham os álbuns de figurinhas de super-heróis, os gibis da Marvel e da Disney. Eu lia, relia, guardava, trocava. Aquilo formou meu imaginário, meu gosto, minha forma de ver o bem e o mal.
Os finais de semana eram outro mundo. Programas de TV que reuniam a família, que não precisavam chocar para entreter. E, mais tarde, veio o Orkut — minha primeira rede social. Simples, ingênua, humana. As pessoas se encontravam ali para conversar, não para brigar por ideologia.
E quando chegaram os DVDs… aquilo parecia o futuro. Escolher um filme, colocar na estante, assistir quantas vezes quisesse. Cada mídia tinha valor. Nada era descartável.
Hoje, com 50 anos, se alguém me pergunta se eu ainda curto tudo isso, minha resposta é direta: sim. E não tenho vergonha nenhuma. Eu não esqueço meu passado. Eu não o desprezo. Porque foi ele que me fez quem eu sou.
Quem vive só de novidade costuma não ter raiz. Eu tenho. E ela se chama 1990.





